Engraçado eu me sentir assim esquisita e nostálgica por um passado que nem é meu. Vou explicar... Há tempos atrás, ainda moradora do Leblon, a prefeitura providenciou o reasfaltamento de várias ruas, inclusive a minha. Rasparam o asfalto antigo, e surgiram paralelepípedos ocultos debaixo daquela camada já grossa de várias demãos de asfalto. Mas veio a prefeitura e cobriu tudo com asfalto novo, lisinho. Queria que tivessem deixado daquele jeito.
Me veio à cabeça uma época que eu não vivi, lá pelos idos de 1960, quando o meu avô comprou o apartamento de fundos que tinha vista para o mar. Naquela época, o paralelepípedo devia estar ali, acompanhando as árvores da calçada (e a calçada eu não faço idéia de como era). Agora, as casinhas baixas que rodeavam o prédio foram demolidas e deram origem a um monte de prédios grandes, que deixaram o prédio de quatro andares, onde fica o apartamento do meu avô, pequeno, intimidado, mas ainda com seu charme de portaria antiga-modernizada. A vista para o mar do apartamento dos fundos desapareceu por completo. Agora é possível apenas ver os vizinhos deitados, trocando de roupa, janelas fechadas, pessoas enroladas em toalhas, organizando a mudança, fazendo alguma refeição. Preferia a praia... Embora haja um bocado de poesia nas tarefas simples do dia-a-dia. Mas em dias pouco inspirados para as pessoas, nada como ver o mar.
O bom é que o mar continua lá, no mesmo lugar, embora não possa mais ser avistado da janela e a poluição tome conta dele em algumas épocas do ano. Se der vontade, basta caminhar dois quarteirões e lá está ele, com sua imensidão e suas ressacas que vão ao outro lado da rua (nada como o mar do Leblon de ressaca em um dia nublado). Mas ainda acho que o paralelepípedo poderia ter ficado à mostra... É engraçado como as cidades mudam... E as pessoas também. Nem bom, nem ruim... Apenas engraçado...