Linha 457
Na vida tudo se aprende... A andar de bicicleta, gostar de verdura, atravessar a rua... Tudo uma questão de costume. Eu, que passo pelo menos três horas do meu dia dentro de um ônibus... TRÊS HORAS, sendo que o dia tem 24hs, passo pelo de seis a oito delas dormindo (quando não muito mais), me sobram, na média 17hs pra viver. Três dessas 17hs eu perco no meu onibus, exatamente 17,64% da minha vida.
Aprendi a gostar de andar de ônibus, e hoje em dia é uma terapia para mim. Aprendi a ler dentro dele, aprendi a me alimentar dentro dele (nada como uma vida regada de jujuba, paçoca e amendoim), aprendi a rir sozinha dentro dele, aprendi a pensar dentro dele, aprendi a observar a vida dentro dele, aprendi a escutar conversas alheias dentro dele, aprendi a escrever dentro dele, aprendi a ter medo e de deixar de ter dentro dele. Muita coisa, ali, sozinha, sendo mais uma apenas.
Tenho a felicidade de ver o Rio e suas cores pela janela, nem ligo pro trânsito quando o ônibus para de frente pro pão-de-açúcar ao entardecer, mil cores! Brinco de fechar os olhos por três segundos, e vejo outra paisagem, com uma cor nova. O Rio em degradê...
Quando volto para o ônibus, percebo que ninguém viveu aquele momento lindo! Todos perderam, se perderam em si, em seus problemas, eu suas vidas... Aquela gorda que entrou cheia de sacolas, rindo e brincando com o trocador, já mudou, já está séria, cansada, acabada. A velha que não se aguenta em pé, continua em pé, e eu continuo fingindo que não a vejo, assim como todos os outros. Brinco de testar a solidariedade das pessoas, até que não me aguento e levanto. Odeio levantar, mas às vezes é necessário. Odeio porque me sinto vulnerável... Passo de observadora para observada. Não gosto.
Os imprevístos me assustam ainda. Não me acostumei com o tipo de brincadeira que os homens fazem uns com os outros, quando são amigos... Sempre tem uma amigo do motorista... Ele xinga, briga, o outro responde, meu coração dispara, até que os dois começam a rir e trocar soquinhos de amizade. Mas me deseqüilíbro pra sempre. Fico tensa e com raiva deles.
Os adolecentes falam demais, gritam demais, tem hormônios demais. As crianças choram e me irritam muito. Mostro a lingua pra aquelas quietas, são as que eu mais gosto. Os surdos-mudos são os mais interessantes. São os que mais falam, falam o tempo todo! O trocador sempre fica pescando até bater a cabeça na janela e acordar com um sustinho, ou até o motorista acordá-lo puxando um assunto qualquer.
Tem sempre alguém cantando baixinho, e batendo os dedos na perna, no rítmo da música. Tem sempre alguém dormindo no ombro do vizinho de banco. Tem sempre alguém quase chorando, sempre alguém quase rindo. Sempre alguém pensando, sempre alguém querendo não pensar. Sempre alguém te observando, mesmo quando você acha que é esse alguém.

3 Comments:
O ônibus, a rua... Lugares de pessoas comuns. É uma poesia e tanto...
Beijos!!
Vê o blog do Rafael, o texto do Joao do Rio!
Adorei o texto, Lerê!
E adorei a indicação da Ana! Hauhauah... É uma fofa mesmo... João do Rio é foda... e o texto não está nem na metade ainda!
Lerê, você pega o mesmo ônibus que eu??!!!...ehehhe... Ótimo texto! Vi as minhas viagens de todos os dias enquanto lia. Passo 4h do meu dia dentro de um ônibus e também aprendi muitas coisas dentro dele. Andar de ônibus no Rio é extamente isso! Igualzinho à sua poética descrição. Ah! E a pessoa dormindo no ombro do vizinho de banco sou eu...huehuehue...
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